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Zara Phillips é a verdadeira realeza, do tipo boa onda e uma cavaleira de classe mundial. Na altura do lançamento da sua colecção de roupa equestre para crianças, ela fala com Sam Leith sobre os Jogos Olímpicos, a sua educação nonsense e um cavalo chamado Toytown. 

 

 

Quando a Tatler se encontra com Zara Phillips - noiva estonteante, antiga campeã mundial de three-day-eventing e "a neta favorita da rainha" - é uma tarde solarenga em Gloucestershire, menos de três dias depois do seu casamento. A lua-de-mel com o marido Mike Tindall foi adiada, diz ela, possivelmente "até estarmos os dois reformados". Ela está a meio da época competitiva e a pensar com nervos nos Jogos Olímpicos do próximo ano. Ele prepara-se para o Campeonato do Mundo de Rugby no Outono. Hoje, porém, tirou o dia para promover roupa desportiva - o lançamento de uma linha para crianças da secção ZP176 da Musto pela qual ela dá a cara. Por isso, passou a manhã a treinar um grupo de miúdos com os seus póneis em frente às câmaras. 

A casa onde Zara se encontra com a imprensa - propriedade de um amigo da família, aparentemente - é escolhida a dedo: o epítome de uma casa de famílias ricas do campo. Abundam desenhos jocosos sobre caça. Papéis de parede da loo-roll (marca) de Annie Tempest e janelas do primeiro andar enfeitadas com tantas rosetas que começas a imaginar o interior da divisão iluminado como a House of Usher. Numa tenda no jardim é servido um buffet: ovos cozidos cobertos de maionese, massa com maionese, batatas com maionese, quiche, maionese. Circulam jarros com Pimm's e a cerimónia é tudo menos monótona - Dolly Maude, amiga da Zara e dama-de-honor no seu casamento, suja-se e transporta um tabuleiro pelo espaço. 

Num canto do relvado, ao pé da maior sebe alguma vez vista, as crianças recrutadas para promover as roupas esta manhã pulam incansáveis num trampolim gigante. (Por volta das duas horas, já se tornaram selvagens. Escuto Dolly dizer: Não! Parem com isso! Parem com aquilo! antes de dizer a um companheiro  "Uffa, ainda bem que a imprensa já não está cá!") Num outro canto, deambulando entre o parecer perdido e o professar nunca ter ouvido falar em Zara Phillips ou Mike Tindall, está um sujeito da De Beers a guardar um saco com pequenos diamantes enviados de Londres para esta entrevista. 

E o espaço está cheio de PR tensas com pólos turquesa avisando jornalistas que Zara está aqui para falar sobre a roupa e que não devemos mesmo começar a falar sobre a família real. O mais curioso é mesmo ela estar cá. Menos de três dias após casar com o seu grande-parecido-com-Shrek jogador de rugby, ela deveria estar a aproveitar num quarto de um hotel caro algures e a pedir o pequeno-almoço pelo serviço de quartos. Não a tentar vender roupa desportiva numa quinta desconfortavelmente quente em Gloucestershire enquanto membros da imprensa lhe fazem perguntas esquisitas tais como se o Duque de Cambridge canta Bon Jovi no karaoke. 

Mas aqui está ela - sem qualquer intenção de gostar disto, mas sendo agradável e simpática, que é exactamente como ela sempre aparece em público. Zara parece-nos sempre como o membro da família real com quem se pode mais facilmente beber um copo. Mesmo quando está a ser fotografada pelos papparazzi, parece ter um sorriso. E fica conhecida como sexy - o que, independentemente do que faça o resto dos membros da sua família, não é um dos seus principais atributos. 

Ao vivo, ela exala saúde, vida e boa energia em geral, arrumada e arranjada, maxilar rígido, pele limpa e levemente bronzeada, cabelo muito louro e atado no que, se fosse maior, pareceria um rabo-de-cavalo. Veste uns jeans azuis, um pólo vermelho e chinelos de dedo. As unhas azuis dos pés - algo azul, deixado desde o casamento - são o mais extravagante que ela tem. Partilhamos um sofá gigante, em que ela se encosta, quase na horizontal, mãos apertada - o que é provavelmente um sinal de nervosismo - entre os joelhos. 

Parece razoável assumir - ou pelo menos, acreditar - que ela não tem prazer nenhum em ser uma figura pública.  A mãe, A Princesa Real, que uma vez disse a um fotógrafo para desaparecer, odeia de morte a imprensa. E depois de ter sido arrastada para as páginas dos jornais durante a sua turbulenta relação com o jockey Richard Johnson, Zara sente muito provavelmente o mesmo. 

A faca de dois gumes com que ela se debate é que ela tenta seguir o seu caminho como Miss Phillips em vez de como uma descendente da Casa de Windsor mas a profissão que escolheu trá-la constantemente para a ribalta. Dizem que gerir um estábulo de primeira categoria para cavalos de eventing lhe custa cerca de meio milhão de libras todos os anos. Ela precisa de patrocinadores para a sua profissão e apesar de ter ganho o Campeonato Mundial ser o motivo central, seria demasiado inocente pensar que as suas ligações com a família real não são um dos motivos que atrai os patrocinadores. Por isso, ela está de algum modo presa à fama. Mas isso não impede que qualquer encontro com ela ser precedido de avisos de que ela se vai embora se lhe chamarem princesa - porque ela não é. 

É verdade. Zara sempre foi apenas Miss Phillips e vai continuar a sê-lo, profissionalmente. A princesa Anne pediu, quando nasceram, que nem a Zara nem ao seu irmão Peter fossem dados HRH (Sua Alteza Real). Pergunto a Zara porque é que acha que a mãe tomou essa decisão. (Embora pareça óbvio que a experiência deixou a própria Anne a olhar para o HRH com sentimentos mistos.)

Ela responde prontamente. "Na verdade, não sei. Devia perguntar-lhe. Acho que foi bom, contudo. Eu e o meu irmão tivemos a oportunidade de fazer muitas coisas com a nossa família que outras pessoas não tiveram. Mas também tivemos a oportunidade de ter uma vida normal."

Mas a própria normalidade causou problemas. Ainda quando Zara era uma adolescente, foi apelidada de "a princesa rebelde" - uma expressão que provavelmente a irá acompanhar até ao túmulo. Esse rótulo incomodou-a ou divertiu-a? Ou foi mesmo algo com que se sentiu lisonjeada? 

"Sinceramente, não sei, um pouco dos dois. Obviamente, eu tinha um piercing na língua" - esse piercing de adolescente, agora desaparecido, causou um escândalo na imprensa - "mas, ao menos, não era tão visível como no nariz ou assim..." Ela pára para depois recomeçar, chateada. "E depois era suposto. Meu Deus, nem consigo pensar no que foi dito. Cada vez que se escreve um artigo, começa com o mesmo assunto e depois dispersa. E muitas das coisas não são verdade. Eu tive uma infância fantástica. Adorava a escola, adorei o meu ano sabático, adoro trabalhar com cavalos..."

Pergunto-lhe até que ponto o peso de origens reais a pressionou a fazer algo por ela própria. "Peso!", exclama, com alguma indignação. "Provavelmente, no subconsciente, tenha sentido isso. Mas também queria ser boa no que estava a fazer. Acho que, na minha família, somos educados para sermos bons naquilo que fazemos." 

Parece justo dizer que o seu papel enquanto embaixadora da Musto não está na lista do que mais a anima. É muito vaga sobre a sua participação no design. "Eu não sou designer", diz, "Trabalhei com a Louise Clinton, a designer de roupa equestre da Musto. Baseámos a linha de criança na linha de adultos e no que eu gostava, e falámos sobre cores e os tons que ficam bem em crianças, são levemente mais brilhantes e com mais riscas, e sobre os tecidos que lhes ficariam bem e que eles não iriam estragar imediatamente. Apenas coisas deste género. Para mim, o objectivo era eles terem uma linha como a dos adultos, mas obviamente com os seus tamanhos e algumas pequenas diferenças." 

Bem, será que ela tem algum favorito? Ela pega no catálogo da Musto e desfolha-o durante um momento ou dois. Encontra um e aponta para ele. "Na linha de criança, eu gosto do casaco com que é possível fazer 10000 coisas. Transforma-se num colete - ou num colete com capuz. Olhe: aqui está uma fotografia. Embora eu goste de tudo. Não consigo escolher. É um pouco estranho para mim por ainda estarmos tão longe disto - esta já é a próxima estação."

Mas é difícil perceber o que ela gosta de fazer - quando não está com os seus cavalos. Ela diz que gosta de cozinhar, por exemplo. Mas o que é que gosta de cozinhar? "Apenas...comida. Nada em particular." Após alguma insistência, ela diz-me que a última coisa que cozinhou foi "provavelmente esparguete à bolonhesa". Não consegue lembrar-se do último filme que viu. Sobre a televisão, ela diz que gosta de séries de crimes. Menciona o CSI. Não ouviu falar no The Killing. Será que ela tem interesse nas notícias, no que se passa no mundo? "Nem por isso. Não. Não posso dizer que sou uma pessoa que gosta de ver as notícias. Tenho tendência para não ler jornais. Leio revistas." Aham. "Claro - a Tatler! Adoro viajar. Nunca fui a África. Gostaria de ir a África e à América do Sul. Já fui à Austrália, Nova Zelândia, Indonésia, Caraíbas, e coisas do género!" Ela não pertence à sua geração. Será que ela usa Facebook ou Twitter? "Não. Acho o Facebook perigoso.", diz ela "Conheço muitas pessoas que já tiveram problemas com o Facebook... Prefiro usar o telefone. Ou Skype. Adoro o Skype" - ela imita uma chamada no Skype - "Está outra vez bloqueado. A sério?

Se quiséssemos ser mauzinhos, podíamos supor - adaptando a deixa de Gertrude Stein sobre Oakland, California - que o problema de Zara, é que quando lá chegamos, não há lá nada. Mas não seria justo. A sua gargalhada, quando existe, transpira a vida real. Mas ela sente-se inibida a falar de si própria e, pode dizer-se, nada interessada no assunto. 

Suspeito que o que vemos não é frieza nem mesmo jogar à defesa, mas uma concentração intensa comum a todos os verdadeiros atletas de classe mundial. Ela não passa muito tempo a pensar sobre o conflito Israel-Palestina ou sobre como fazer a melhor base para bolos, muito menos a ponderar as fontes das suas motivações. Ela tem sete cavalos, cada um necessita uma hora de exercício diário. O que ela realmente faz durante o seu dia é montar - ou pensar em montar. 

Nisso, ela faz parte de outra "empresa" familiar: ambos os seus pais foram atletas olímpicos de eventing. Quando ela pensa nas suas ambições, sentir-se-á em competição com eles? "Não", diz pensativamente. Pausa e depois recomeça. "Muitos me perguntam isso, mas não. É toda uma nova era de eventing. É preferível traçar objectivos para mim própria do que pensar: «Acho que vou bater o que vocês fizeram!»". 

Serão eles bons críticos do seu trabalho? "Ás vezes. Nem por isso. O meu pai consegue ser muito crítico, por vezes. Se eu faço alguma coisa muito bem, ele diz-me. Mas é difícil receber um elogio dele. É a maneira dele e a sua maneira de treinar."

O capitão Mark Phillips é notavelmente franco - uma vez chamou Zara de criança, em público. Achará ela isso difícil? "Pode ser. É na boa se estiveres a ser bem sucedido e a sentires-te confiante - mas quando não estás a ter tanto sucesso, pode ser mais difícil. É aí viro-me para a minha mãe. Mas também - ele está a dizer a verdade. "Não fizeste isso suficientemente bem, é por isso que isto aconteceu". Aí tens que voltar a tentar e fazer o melhor." 

No momento, fazer o melhor refere-se ao Jogos Olímpicos do próximo ano. Se ela for seleccionada para a equipa, será como quebrar um feitiço. Ela falhou as útlimas duas edições dos Jogos por causa das lesões do seu cavalo Toytown, com que ela tem feito a sua carreira e a que ela chama "o meu cavalo de uma vida". A carreira de Toytown está a chegar ao fim. Se ela for para o ano, será certamente com um cavalo mais jovem, High Kingdom. 

Quando lhe pergunto sobre se ela acha que alguma vez vá atingir outra vez o que atingiu com Toytown, a atleta que há em si diz que sim - mas o amor pelos cavalos transparece na sua voz quando continua. "Eu gosto deles todos. Construí boas relações com eles todos. Mas ele era praticamente único." Ela mantém-se calma e dá-me várias razões para a reforma de Toytown, mas no Domingo a seguir, é fotografada em lágrimas quando o mostra em público pela última vez em Gatcombe Park. 

Quando lhe pergunto sobre o que virá depois, o que ela quererá fazer quando parar de competir, ela não tem propriamete uma resposta. No entanto, a pergunta leva-a a dizer: "Adoraria ter filhos, mas não no momento. Sinto-me bem a competir e a trabalhar..."

"Eu não perguntei sobre filhos", digo-lhe. "Eu sei!" responde "Estou a falar-lhe sobre isso e nem sequer me perguntou!"

O que é que ela ambiciona? Se ela ganhar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos do próximo ano, o que se seguirá? "Tem-se metas todos anos. Há sempre outras competições ou outros sonhos que queres concretizar. Ganhar Badminton e Burghley, os Jogos Olímpicos, outro Campeonato do Mundo..."

"Todas as suas ambições são relacionadas com cavalos?", pergunto.

"Sim", responde, "Agora já não posso apostar na patinagem"

Olhando para trás, será que ela se arrepende de alguma coisa? Há alguma coisa que teria feito diferente?

"Não sei. Aprende-se sempre com os próprios erros, por isso... Mas não lhe consigo enumerar nada. Tenho sido uma sortuda.

Ao sair, tenho que lhe perguntar: "Chama-a de avó?" Ela parece um pouco nervosa e murmura "Ela é minha avó". Mas chama-a avó? "Sim, claro."

E com isso chegamos ao fim. Ela parte para a fazer o cabelo e a manicure e troca as suas calças de ganga por umas de equitação e espera pacientemente, com o sol a bater-lhe nos olhos, parece linda e serena no meio de um terreno cheio de cavalos. 

Ah, e o tipo da DeBeers? Após um dia à espera ao calor, ele regressa a Londres com as peças ainda guardadas. Os diamantes não são precisos. Zara não os vai usar. 

 

Para ler o original, em inglês, clique em: LINK 

 

 

 

 

 

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